Roteiro de 4 dias no Atacama

Ao pensar em um deserto, o que primeiro vinha à minha mente era um terreno infinito de areia, camelos, um oásis ao fundo. Estereótipo clássico! Após passar quatro dias no Atacama, voltei com uma certeza: a natureza de uma região desértica pode ir muito além disso, e ser fascinante. Vulcões, lagoas, termas, salares… só para começar!

Aqui descrevo cada passeio que fiz nessa viagem, para ajudá-lo a escolher quais farão parte do seu roteiro!

Dia 1

Os tours no Atacama podem ser de dia todo ou meio período. Como eu queria tirar o máximo proveito de minha estadia, busquei um passeio de meio período para fazer já no dia em que cheguei. Mas, devo ressaltar que, se você é sensível aos efeitos da altitude, é recomendável passar por um tempo de aclimatação. Prefira não iniciar seu roteiro pelos passeios de maior altitude. As agências podem orientar quanto a isso.

Lagoas Cejar e Piedra, Olhos do Salar e Lagoa Tebenquiche

Saímos por volta das 14h30, num grupo bem animado de oito pessoas. Todos brasileiros.

Laguna Piedra

A primeira parada foi na lagoa Piedra.

A alta salinidade da lagoa Cejar, no Atacama, proporciona uma experiência diferente
A alta salinidade da lagoa proporciona uma experiência diferente

A água estava bem gelada e eu não encarei um mergulho. Mas, todos que entraram adoraram, já que a alta salinidade da lagoa proporciona uma experiência bem diferente. Ou seja, não é possível afundar nem que você queira!

Um alerta sobre a lagoa Piedra é não ingerir sua água que, assim como a da lagoa Cejar, contém altos índices de arsênico. Por isso, o banho tem algumas restrições para não prejudicar a saúde. Mas o guia explica tudo direitinho antes. Nesse passeio precisa levar chinelo e roupa de banho. Há outra lagoa ao lado, que não é permitida para banho, mas que rende lindas fotos.

Antes de ir para a próxima parada é recomendável tomar uma ducha para tirar o sal da pele (não pode usar sabonete, shampoo, etc., então nem adianta levar). A infraestrutura de chuveiros e banheiros do local é boa e organizada.

Vestiários e banheiros para visitantes das lagoas
Vestiários e banheiros para visitantes das lagoas

Laguna Cejar

A lagoa Cejar fica praticamente ao lado. Ela já foi permitida para banho, porém, hoje não é mais. O que ela oferece? Um cenário lindo para fotos! Se der sorte, com flamingos…

O que fazer no deserto de Atacama: Lagoa Cejar
Lagoa Cejar é um dos passeios mais tradicionais no deserto de Atacama

Ojos del Salar

Saindo das lagoas fizemos uma parada rápida nos Ojos del Salar. O nome faz jus à paisagem. Os cenotes circulares de água de doce, de fato parecem olhos. Pode mergulhar ali, mas a única forma é saltando de uma altura de alguns metros. Nós paramos apenas para fotos divertidas.

Os Ojos del Salar são cenotes de água de doce, no Atacama
Os Ojos del Salar são cenotes de água de doce

Laguna Tebenquiche

Partimos para a a lagoa Tebenquiche. Na minha opinião foi o ponto alto do dia! Como não estava ventando, o reflexo na água foi perfeito.

Vista sensacional da lagoa Tebenquiche, no Atacama
Vista sensacional da lagoa Tebenquiche, no Atacama

Além da paisagem sensacional, a lagoa também é especial em outro sentido. Ali habitam organismos extremófilos, ou seja, que vivem em condições ambientais extremas. Foram eles que deram origem à vida na Terra e são os seres vivos mais antigos do planeta. Ademais, liberaram oxigênio na Terra a 3.800 milhões de anos gerando a camada de ozônio. Uma placa informativa do local diz que eles só existem em 3 lugares do mundo: no Golfo do México, na Austrália e ali.

Logo veio o pôr do sol deixando a paisagem ainda mais linda, o que parecia impossível.

Pôr do sol na lagoa Tebenquiche
Pôr do sol na lagoa Tebenquiche

Nesse momento, com aquele esse visual incrível, foi servido um coquetel com tacos, torradas, patês, sucos e vinhos. A agência Araya mandou bem, e como o grupo era animado, ficamos até anoitecer, apesar do frio intenso, que chegou junto ao pôr do sol. Por isso, lembre de levar casaco pesado.

Coquetel ao anoitecer à beira da lagoa Tebenquiche
Coquetel ao anoitecer à beira da lagoa Tebenquiche

Já li depoimentos de muitas pessoas comentando que não vale a pena fazer esse passeio, especialmente pelo valor cobrado para acesso à lagoa Cejar, que é bonita mas, de fato, há outros locais mais interessantes. No entanto, o pôr do sol na lagoa Tebenquiche, que está no mesmo roteiro, é imperdível e achei que faz valer o passeio. Foi o pôr do sol mais bonito da viagem.

Dia 2 (manhã)

Termas de Puritama

No segundo dia, fiz dois passeios de meio período com a agência Flavia Bia.

Pela manhã, saímos bem cedo para as Termas de Puritama. Confesso que estava super na dúvida entre fazer ou não esse tour. Por fim, acabei indo. Que bom! Eu amei o passeio!! São 8 lagoas, em meio a um cânion, com temperaturas entre 28oC e 31oC.

O local é mantido pelo Hotel Explora Atacama (leia mais sobre hotéis no post Dicas para planejar sua viagem ao Atacama), que faz uso exclusivo de uma das oito lagoas do local para seus hóspedes (chique né?!).

A água cristalina das Termas de Puritama
A água cristalina das Termas de Puritama

Levamos uns 40 minutos de San Pedro do Atacama até as termas. Lá tem estrutura ótima de banheiros, vestiários, lockers e mesas para refeição. Como chegamos cedo, tinha pouca gente. Para completar a experiência, a agência Flavia Bia fornece roupões e também leva um massagista que faz uma sessão de watsu (relaxamento na água).

Deu para aproveitar muito. A água é supertransparente e quentinha!

Relaxando nas águas quentinhas das termas de Puritama
Relaxando nas águas quentinhas das termas de Puritama

O tour encerra com um brunch no local, que para mim foi um almoço. Muito caprichado, com ceviche de salmão, camarões salteados e outros beliscos, creme de legumes quentinho, vinho branco e de sobremesa fruta coberta com chocolate.

Brunch nas Termas de Puritama, Atacama
Brunch nas Termas de Puritama

Esse é um passeio que não vale muito a pena para quem não vai entrar na água. Mas, para quem entra… é sensacional!

Dia 2 (tarde)

Valle de la Luna

O Valle de la Luna e o Valle de la Muerte ficam próximos a San Pedro. É um lugar de geografia única, com rochas sedimentárias cheias de ranhuras esculpidas pelo vento, chuva e outras condições atmosféricas.

Formação rochosa do Valle de la Luna
Formação rochosa do Valle de la Luna

O guia nos levou por uma pequena trilha cavernosa entre as rochas. Em certo momento, escalamos uma delas.

Miniescalada no Valle de la Luna, no Atacama
Miniescalada no Valle de la Luna

O impressionante é que a falta de umidade torna o local tão inóspito que não se vê um sinal de vegetação ou vida animal. Bom, eu agradeci por isso quando estava dentro da caverna!

Explorando caverna no Valle de la Luna
Explorando caverna no Valle de la Luna

Tanto a escalada, quanto a caverna, são possíveis de encarar sem muita dificuldade, mas quem prefere não se arriscar pode aguardar ao lado de fora para encontrar o grupo novamente após cerca de 15 minutos. Eu recomendo muito fazer. Afinal, de todo esse passeio, essa foi a parte mais divertida e linda. Precisa ir com um calçado bem confortável e uma calça que permita movimentos. Ah, suja bastante, com uma terra fina e vermelha. Inclusive, a calça desse dia não pude usar mais antes de lavar.

Em seguida, fomos para o Valle de la Muerte.

Valle de la Muerte

Esse local também é conhecido como Valle de Marte e, de fato, parece outro planeta.

Paisagem do Valle de la Muerte, no Atacama
Paisagem do Valle de la Muerte, no Atacama

No alto de um despenhadeiro, esperamos o pôr do sol.

Pôr do sol no Valle de la Muerte
Pôr do sol no Valle de la Muerte

É bem bonito, pois a luz reflete naqueles paredões imensos e as cores e sombras vão mudando (mas o pôr do sol da Lagoa Tebenquiche ainda foi o meu preferido).

Valle de la Muerte ao entardecer
Valle de la Muerte ao entardecer

Dia 3

Salar de Tara (uma aventura!)

(atualização: esse passeio está fechado atualmente sem previsão de reabertura)

Para conseguir chegar ao salar precisa conhecer muito bem o local e as dunas, se orientar pelas montanhas, pois não tem sinalização (tem que entrar no meio do deserto sem estrada, rua ou trilha), saber dirigir em um lugar fácil de atolar, pois tem areia fofa em subida íngreme e neve, não há sinal de celular para emergência, é um lugar de ar rarefeito e muito frio, mesmo durante o dia. Além disso, é um tour em que você passa horas a 4.300 metros de altitude. De todos os passeios que fiz, esse é o menos recomendável para ir sem agência ou um bom guia.

São cerca de 130 km de San Pedro até o salar de Tara.

O acesso nem sempre é possível devido a condições climáticas, principalmente neve. Então, a depender da época do ano, esse passeio pode não estar disponível. Eu fui em junho e chegou a fechar uns dias, no período da minha viagem.

É um tour de dia todo e não é supertranquilo. Tanto pelas condições que mencionei acima, como também por não ter estrutura de banheiros.

Vale a pena?

Vale! Fui com a agência Flavia Bia. Iniciamos o passeio por volta das 8h. Pegamos a estrada (a mesma que vai para a Bolívia e a Argentina) e após alguns quilômetros enfrentamos uma barreira policial. Estavam olhando documentos de todos os veículos e liberando os carros aos poucos, pois quando tem neve essa estrada pode ser escorregadia. Levamos uns 30 minutos até passar a barreira de controle. No trecho de estrada que usamos, não tinha neve alguma na pista.

A paisagem no caminho, já a partir desse ponto, é algo indescritível. A vegetação desértica, a neve, os vulcões, o sol…formam um conjunto lindo.

Estrada para o Salar de Tara
Estrada para o Salar de Tara

Nossa primeira parada foi praticamente à base do vulcão Licancabur, onde a agência serviu nosso café da manhã.

Café da manhã com vista para o vulcão
Café da manhã com vista para o vulcão

Altitude nos passeios do Atacama

Além da vista, de perder o fôlego, o guia explicou que essa também é uma parada estratégica para ajudar o corpo a acostumar com a altitude, que em seu ponto máximo chegou a 4.800 metros. 

Eu já tinha tomado chá de coca antes de sair do hotel, mas tinha também no café (veja mais sobre o chá de coca no post Dicas para planejar sua viagem ao Atacama). A mim, creio que ajudou, pois não senti os efeitos da altitude por nenhum momento do passeio. Outras pessoas em nosso grupo tiveram bastante dor de cabeça.

Parada na lagoa Diamante

Após o café fizemos uma parada na lagoa Diamante, que estava congelada. Essa parada foi divertida demais! Para mim, que nunca tinha visto lagoa congelada (só em filmes!) e muito menos andado sobre uma, valeu o passeio todo.

Andando sobre a lagoa Diamante congelada, no Atacama
Andando sobre a lagoa Diamante congelada

Tiramos fotos incríveis, brincamos de deslizar e rimos muito. Até esquecemos um pouco do frio, que estava cruel.

O trajeto ao salar de Tara tem muitas paradas interessantes
O trajeto ao salar de Tara tem muitas paradas interessantes

Dica: tamanho é o frio que as baterias dos celulares descarregam a zero em minutos. No meu caso, descarregou a da câmera também! Só estávamos começando o passeio! Como eu havia levado bateria extra para o celular, pude dar mais uma carga no caminho. Isso salvou minhas fotos, senão as lindas paisagens iam ficar só na memória (veja outras dicas em O que colocar na mala para o deserto de Atacama).

Chegando ao deserto

Saindo da lagoa, entramos no desertão. Fizemos uma parada bem rapidinha para tirar fotos nos “Monjes de la Pacana”. São formações rochosas gigantescas esculpidas pelo vento. É ali também que fica a rocha do índio.

Rocha do Índio nos Monjes de la Pacana
Rocha do Índio nos Monjes de la Pacana

Seguimos em frente pelo meio do deserto. Quando não há barreiras são uns 40 minutos mais de viagem (quase um rally) até o salar de Tara. Mas, levamos cerca de 1h30. Em alguns pontos do caminho, não foi possível passar, pois tinha neve acumulada e o motorista precisou ir buscando caminhos alternativos.

O que fazer no Atacama: salar de Tara
A neve dificulta ou impede a passagem em alguns pontos do caminho

Sobre banheiros no Atacama

Nesse momento eu já comecei a me arrepender de ter tomado tanta água. Sim, a questão da hidratação é importante, mas para esse tour, ao menos de manhã, tome líquidos com moderação.  Lembre-se de que não há banheiros. Se a situação ficar crítica, o guia dará um jeitinho de arrumar um “banheiro inca”, que só serve para o número um. Mas, não tem muitos arbustos ou pedras por ali, então, tivemos que esperar um tantão até pararmos em um banheiro inca.

Chegamos, e com segurança, porque o motorista e o guia conheciam bem o local. Outras agências acabaram retornando.

Esse salar foi formado após a erupção do vulcão Vilama. Hoje a área é chamada de Caldeira Vilama e fica na Reserva Nacional los Flamencos, quase nas fronteiras entre Chile, Argentina e Bolívia.

É muito bonito mas, para mim, o ponto alto do passeio foi o trajeto, que é sensacional.

O salar de Tara é um dos pontos turísticos do Atacama
O salar de Tara é um dos pontos turísticos do Atacama

A agência serviu almoço à beira do salar e como muitas agências acabaram não chegando, estava praticamente vazio. Ponto para a Flavia Bia! O cardápio foi salada, salmão assado e um tipo de risoto de quinoa. Tudo ótimo, e a sobremesa… um pecado servirem uma só por pessoa! 

A volta foi mais tranquila, e também cheia de paisagens lindíssimas.

Vida selvagem do deserto de Atacama
Vida selvagem do deserto de Atacama

É uma experiência única e valeu muito a pena!

Dia 4

Pueblo de San Pedro de Atacama

Meu voo de retorno a Santiago era no fim da tarde, então precisava sair do hotel até 13h. Era possível, dentro desse horário, fazer o tour para o Geiser El Tatio (que sai muito cedo e retorna cedo também), mas optei por ficar pela cidade e conhecer os arredores.

O povoado de San Pedro, basicamente, está concentrado entre as Ruas Caracoles e Gustavo Le Paige, em quatro quarteirões, que ficam supermovimentados à noite, com turistas indo e vindo dos bares, restaurantes e comércio local. Durante o dia, o movimento maior é nas agências, casas de câmbio (que não têm conversão muito boa) e locadoras de bicicletas. No entanto, como fui andar logo cedo, as ruas ainda estavam vazias.

Leia o post O que o turista brasileiro precisa saber sobre a moeda do Chile?

Rua de San Pedro ainda vazia pela manhã
Rua de San Pedro ainda vazia pela manhã

Andei pelas ruazinhas simpáticas de terra e, em 15 minutos, já tinha passado pelos pontos principais: igreja, praça, prefeitura, feirinha de artesanatos.

Igreja de San Pedro de Atacama
Igreja de San Pedro de Atacama

Vale a pena entrar em um dos mercadinhos locais, só para dar uma espiada. São como aqueles armazéns antigos de bairro, que têm tudo o que se pode imaginar. A farmácia Salcobrand também se parece com uma botica antiga. É como dar uma voltinha no passado.

Armazém em San Pedro de Atacama
Armazém em San Pedro de Atacama

Durante os dias de tour acabei não almoçando ou jantando. As refeições caprichadas, oferecidas pela agência Flavia Bia, foram suficientes. No entanto, mais de uma vez (porque é muito bom!) fui comer empanada no Empório Andino, na esquina da rua Caracoles com a Domingo Atienza.

A massa é bem fininha, tem muito recheio, saem quentinhas e, além disso, tem várias opções de sabor. A minha preferida foi a de champignon com milho e queijo. Ali, também vendem smoothies e umas tortas doces lindas.

A melhor empanada que já comi no Chile está no Atacama
A melhor empanada que já comi no Chile está no Atacama

Pukará de Quitor

Terminado meu city tour, resolvi andar até o Pukará de Quitor. No passado, era um forte para proteção dos povos atacamenhos e, hoje, é patrimônio arqueológico. Fica a 3 km do centrinho, mas, sob o sol, que estava forte, pareceu mais… Por fim, acho que é mais recomendado ir de bicicleta. E lembre de levar água!

Placa Pukara de Quitor no Atacama
Patrimônio arqueológico a 3 km de San Pedro de Atacama

Chegando lá pagamos 3 mil pesos (17 reais) para entrar. Há duas trilhas possíveis de se fazer. Uma longa e uma curta, ambas de subida íngreme. Não nos arriscamos na longa e nem havia tempo suficiente para ela. Mas, quem encara, tem uma vista completa de San Pedro.

Fomos na curta, de dificuldade média. Deu para tirar umas fotos bonitas a partir do mirante.

Vista de um dos mirantes
Vista de um dos mirantes

Tem uma terceira trilha de cinco minutos, bem interessante. Por ali, há faces gigantes esculpidas nas rochas! Há também uma caverna, mas é só para experts e com equipamento apropriado.

Faces gigantes de Pukará de Quitor
Faces gigantes de Pukará de Quitor

Valeu a caminhada até lá! Apesar de ser pouco divulgado, o Pukará é um bom atrativo, caso não esteja em algum tour.

De volta ao hotel só houve tempo para me trocar, fechar a mala e fazer o check out. Logo chegou o transfer para Calama, de onde embarquei para Santiago.

Veja também como são os passeios às lagoas Altiplanicas e Escondidas no post Os passeios do Deserto de Atacama.


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2 comentários Adicione o seu

  1. Chileando disse:

    Que bom Fabio! Você vai adorar. É incrível.

  2. Fabio Fragoso disse:

    Muito legal o seu Blog, adorei, Santiago é maravilhoso agora com essas dicas, vou me programar para conhecer o Atacama !!!

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